O TENENTISMO EM SERGIPE
Ao longo da História, o Brasil viveu um período de Colônia, a partir de 1822. Instalou-se o Império, sendo que, entre o primeiro e o segundo Império, vivemos o Regime Regencial.
Politicamente, podemos dizer que as formas de governo até 1889 privilegiavam uma pequena parcela da sociedade brasileira, excluindo a maioria da população da vida econômica. A sociedade considerada elite decidia os destinos do Brasil e esse mesmo grupo passa a questionar determinadas atitudes do Império brasileiro.
O Movimento Republicano passa a ganhar força em todas as províncias do nosso território. Um monarquista convicto, diante da realidade da política, apoiado por antimonarquistas, em 15 de novembro de 1889, proclama a República (organização política de um Estado com vista a servir a coisa pública, ao interesse comum), instalando um nova forma de governo e, conseqüentemente, o banimento da família real.
No início, a República brasileira nada mais foi do que a administração por parte dos militares, um golpe dado com o apoio das elites, onde o povo não teve qualquer tipo de participação. Segundo José Murilo de Carvalho,
“Em frase que se tornou famosa, Aristide Lobo, o propagandista da República, manifestou o seu desapontamento com a maneira pela qual foi proclamado o novo regime. Segundo ele, o povo, que pelo ideário republicano deveria ter sido protagonista dos acontecimentos, assistira a tudo bestializado, sem compreender o que se passava, julgando ver talvez uma parada militar” (Os bestializados. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998).
A República brasileira balizou-se por três políticas de sustentação: na esfera federal, pela política do café-com-leite; a nível de estado, a política dos governadores; a nível local, pelo poder dos coronéis. O Brasil vivia a força das oligarquias (governo de poucas pessoas pertencentes ao mesmo partido, classe ou família).
O primeiro presidente civil, Prudente de Morais, foi eleito em 1894, um representante das elites que muito influenciava a vida política brasileira desde o Império, os senhores de terras. Enquanto as camadas médias urbanas da sociedade brasileira menos favorecida trazia no seu meio a insatisfação com a sua participação na vida política brasileira, chegando até a mesmo a posicionar-se contra algumas determinações, como, por exemplo, alguns passaram a posicionar-se favoráveis ao fim do sistema escravocrata.
Com o advento da República, esses setores médios do Exército, além de não se sentirem representados, viam que a política brasileira continuava trabalhando em favor de poucos, enquanto eles e a maioria da população viviam à mingua.
Dentro desse contexto sociopolítico brasileiro, a oficialidade de baixa patente, os tenentes, passam a propor reformas políticas, tais como: o fortalecimento do poder central e o voto secreto. Esses anseios, embora os tenentes não tivessem ideologicamente ligados a qualquer classe social, vão encontrar nas camadas médias urbanas uma espécie de caixa de ressonância.
Em 05.07.1922, estoura no Rio de Janeiro, o Movimento dos Tenentes, conhecida como a Revolta do Forte de Cobacabana (18 do Forte) e, posteriormente, alastra-se por outras regiões do Brasil, como a Revolução Gaúcha (1923), a Revolução Paulista (1924) e a Coluna Prestes.
Em Sergipe, nesse período de revoltas tenentistas por todo o Brasil, o governador era Graccho Cardoso, representante legítimo das forças conservadoras, lideradas pelo general Oliveira Valadão. A eleição de Maurício Graccho Cardoso era a mais perfeita sintonia com a política do café-com-leite e as oligarquias estaduais. Em nosso estado, o presidente sufragado na mesma eleição foi Artur Bernardes.
Embora o governador tenha procurado fazer uma administração modernizadora – embelezamento de Aracaju, melhoria na produção do algodão, construção de escola e de pontes –, ele representava um modelo político há muito contestado.
Os questionamentos não ocorriam só na área dos tenentes, a intelectualidade demonstrava a insatisfação através dos seus escritos, os artistas pela sua arte. Até mesmo o cangaço foi uma outra forma de manifestação contra a política brasileira.
O elo catalisador dessa insatisfação, em Sergipe, foi Augusto Maynard Gomes, que liderado pelo brigadeiro Eduardo Gomes, já tinha participado do levante do Forte de Copacabana, quando acabou sendo preso e enviado para a Ilha das Cobras, depois fugindo para o Rio de Janeiro.
O movimento em nosso estado teve início na noite de 12 de junho de 1924, quanto o tenente João Soriano de Melo, o capitão Eurípedes Esteves de Lima, o tenente Augusto Maynard, que liderou o movimento, e o segundo tenente Manoel Messias de Mendonça, prendem o major Jacinto Dias Ribeiro, comandante da Guarnição, e subleva o quartel do 28.° BC, aderindo a maioria da oficialidade. Nesta época, o quartel estava localizado na Praça 24 de outubro, no local onde hoje está o Hotel Palace.
A tropa foi dividida em três companhias: a primeira, liderada pelo capitão Eurípedes Esteves de Lima, passou a ocupar pontos estratégicos da cidade; a segunda, liderada por Soriano, seguiu pela Rua Santa Rosa e Santo Amaro até a Praça Olímpio Campos, dirigindo-se ao Palácio do Governo; a terceira, comandada por Augusto Maynard, seguiu pela Av. Rio Branco até o quartel da Polícia Militar.
A primeira vítima de morte foi um anspeçada e dois soldados foram feridos. A população assustada pensava que a usina elétrica tinha explodido. Depois de tomado o palácio, que ficou sob responsabilidade de um sargento, Soriano saiu em ajuda de Maynard. O tenente coronel da Polícia Militar, Caetano da Silveira Bastos, e o oficial do dia, fugiram. Os demais renderam-se, sendo levados presos para o 28.° BC. O próprio comandante do 28.° BC, major Jacinto Dias Ribeiro, vendo que não tinha como estancar o movimento, entregou-se ao capitão Eurípedes Lima.
Depois de dominar o palácio e o quartel da polícia, os revoltosos marcharam para ocupar o telegrafo e a estação ferroviária, a usina elétrica e o sistema de telefonia.
No dia 13 de junho de 1924, o comandante do 28.° BC já era informado através de boletim interno da nova estrutura hierárquica do Exército. O comando ficou com o capitão Eurípedes; Maynard e seu batalhão com a fiscalização; e Soriano, com o comando das subunidades e na assessoria de ajudante e secretário.
No alvorecer do dia 13 de junho, o governador foi comunicado da nova ordem vigente no estado e foi conduzido preso para o 28.° BC. O general José Calazans, embora visse como necessária, não aceitou o comando do estado, cabendo a uma Junta Governativa Militar, formada pelo capitão Eurípedes Lima, 1.° tenente Augusto Maynard, 1.° tenente João Soriano e 2.° tenente Manoel Messias de Mendonça. Era preciso assegurar o poder. A junta, então, lança um manifesto à sociedade sergipana, explicando o motivo da tomada do poder e conciliando o apoio do povo, assim como às autoridades nas esferas municipais, estaduais e federais foram comunicadas e responderam, dando ciência da nova realidade.
A imprensa esteve parcialmente sem funcionar, os jornais “Diário da Manhã” e “Sergipe Jornal”, por defenderem pontos de vista das oligarquias, não fizeram sua publicação. O “Correio de Aracaju”, cujo dono era Edson de Oliveira Ribeiro, passou também a dirigir o Diário Oficial, que circulou normalmente.
Além de Aracaju, as cidade de Carmópolis, Rosário do Catete, Japaratuba, São Cristóvão e Itaporanga apoiaram os revoltosos tenentistas. Em Aracaju, os líderes do movimento passaram a preparar a capital para um contra movimento externo. Por forças legalistas da República brasileira, na região do Carvão até o Tramandaí foram cavadas trincheiras, convocados reservistas, além de voluntários.
Na madrugada do dia 23 para 24 de junho, no horizonte é avistado o contra-torpedeiro Alagoas, que logo desapareceu. As forças legalistas preparavam o ataque para pôr fim ao movimento dos tenentes em Sergipe, as tropas situadas no norte e no sul do estado se puseram em marcha para Aracaju. As tropas do general Marçal de Farias era formada por homens de Pernambuco, Alagoas e Paraíba.
Os revoltosos de Sergipe reorganizaram as tropas, chegando a enviá-las para Itaporanga, sob o comando de Soriano, enquanto Maynard comandava as tropas de São Cristóvão.
No dia 2 de agosto, os jornais divulgavam a presença do general Marçal Nonato de Farias, conclamando o povo a manter-se leais às forças federais. Os revoltosos vencidos voltaram ao quartel de Aracaju e os legalistas avançavam. O contra-torpedeiro Alagoas ficou fundeado na Ponte do Imperador, além do navio Íris.
No dia 4 de agosto foi empossado o presidente deposto, Maurício Graccho Cardoso, baixando um decreto, onde tornava sem efeito qualquer ato dos tenentes. Os líderes do movimento foram caindo, Soriano foi preso no dia 6 de agosto, no dia 9 foi a vez de Eurípedes ser conduzido preso de Laranjeiras para Aracaju, Maynard fugiu, chegando até São Paulo, onde foi preso. No dia 7 de fevereiro de 1925, a bordo do navio Itapacy, chegava a Aracaju.
Foram abertos processos para julgar os revoltosos. Na prisão, no dia 01.11.1924, faleceu o Dr. Zaqueu de Freitas Brandão. Em março de 1925, era concluída a fase de defesa, embora não tenha saído o veredicto, sabe-se que o procurador do caso, Dr. Oscar Viana, acusava 606 pessoas. Seu substituto, Dr. Plínio de Freitas Travassos, novo procurador, apresentava 252 envolvidos, entre eles, 5 cabeças, além dos líderes, o general José Calazans, o Dr. Paulo Martins. Em 28 de agosto, reduziu-se ainda mais o número de acusados.
O governo de Graccho Cardoso, assim como o Brasil, estava sob a Lei do Estado de Sítio, aqui representado pelo general Marçal Nonato de Farias. No dia 19 de janeiro de 1926, liderados pelos tenentes de 1924, por volta das duas horas da manhã, 300 amotinados atacaram a casa do presidente e os órgãos públicos. Maynard foi ferido, Soriano abandonou o posto, Eurípedes foi o último a capitular, chegando ao fim mais uma
